Pensar Setúbal: Os 50 anos do 25 de Abril de 1974 (Parte XXX):O Legado

Giovanni Licciardello – Professor

À medida que vamos avançando na idade e vamos cada vez mais tendo a noção de nós próprios e daquilo que nos rodeia, temos a convicção que o 25 de Abril de 1974 é como o vinho de ótima qualidade; fica cada vez melhor com a idade.
Quanto a mim, é precisamente a perceção que tenho quando procuro analisar tudo o que aconteceu e continua a acontecer, ao longo destes cinquenta anos.
Fizemos imensos progressos; a Liberdade que tenho em refletir, analisar, sintetizar e escrever, para que os leitores possam ler, concordar ou discordar, é algo de fundamental e estruturante numa sociedade democrática.
A existência de uma imprensa livre, independente e responsável, constitui um dos alicerces da democracia; permite gerar cidadãos que tenham sempre consigo a semente do espírito crítico, um dos motores do desenvolvimento das sociedades, a todos os níveis.
No tempo do Estado Novo, quando ia para a escola, para o Liceu (atual Escola Secundária de Bocage), tinha colegas que vinham de locais tais como Palmela, Azeitão, Pinhal Novo, Sesimbra, Lagameças, Lau, Poceirão, Águas de Moura, Pegões e que se tinham de levantar de madrugada, para chegaram às 8.30 da manhã.
No tempo do Estado Novo, vivia-se muito em barracas sem saneamento básico, nem qualquer tipo de salubridade. Assim se vivia em Setúbal e em muitas cidades. Eram os tempos das dificuldades, da miséria de não ter casa digna, da pobreza de quase não ter o que comer, da desgraça de ser condenado a viver excluído nas zonas limítrofes da cidade, da sociedade e da vida.
Em 1970, mais de onze mil pessoas viviam nos bairros da lata, os chamados “bairros da folha” de Setúbal ou “bairros dos índios”.
Não se vivia; sobrevivia-se. Era comum ver pessoas na rua a circularem com os pés descalços.
Não, antigamente não era melhor. Nem bom.
A Revolução dos Cravos decorreu num momento crucial na história de Portugal, assinalando um período de democracia e liberdade.
O 25 de Abril é, portanto, um dia de memória e de reflexão, mas também a celebração pelos enormes progressos conseguidos nos últimos cinquenta anos.
Não obstante os desafios e as dificuldades encontradas nos últimos anos, Portugal conquista e mantém-se uma democracia consolidada com uma economia estável e uma sociedade civil com algum dinamismo.
A herança do 25 de Abril continua a inspirar sucessivas gerações, recordando-nos em permanência a importância da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos.
Se por um lado o Portugal de hoje é claramente um país melhor relativamente ao passado, por outro lado persistem ainda diversos constrangimentos tais como baixa produtividade, precaridade no trabalho, o deterioramento dos serviços públicos e a corrupção.
Nesse sentido, Portugal posiciona-se entre os países europeus com menor produtividade per capita, o que constitui um forte condicionamento, desacelerando a economia e a competitividade; por outro lado, uma ampla fatia dos trabalhadores, sobretudo os jovens, é afetado por contratos precários e baixos salários, condicionando a atividade económica e a mobilidade social.
Muitos jovens são obrigados a sair do país.
Os serviços públicos, tais como na Saúde e na Educação, denota-se uma carência acentuada de recursos humanos, acarretando um impacto negativo na qualidade de vida dos cidadãos
Por último, temos a corrupção. Nada pior do que impunidade e prescrições, para minar a dignidade da nossa dimensão democrática; arguidos a usarem todos os truques processuais que conhecem para se safarem.
Esse é um caminho ainda muito longo a percorrer. Somente com uma revolução nas mentalidades é que lá chegaremos.
Não obstante os desafios, Portugal possui as potencialidades de ir ao seu encontro e de construir um futuro melhor.
Para isso, torna-se necessário um empenhamento concreto investir na inovação e na formação, favorecendo o crescimento de sectores basilares, aumentar a produtividade e a qualificação, promovendo um trabalho digno, com salários dignos, diminuindo a precariedade, bem como o reforço dos serviços públicos.
Esta foi a última crónica que escrevi sobre o 25 de Abril, neste contexto, de um total de trinta. Nunca deixarei de escrever ou falar sobre esta data tão simbolicamente importante.
Recordo Fernando Salgueiro Maia com muita saudade.
Gosto muito do 25 de Abril.
Para mim, como para tantos de nós, é uma data mágica, assumindo um significado especial.
VIVA O 25 DE ABRIL.

Fonte: O Setubalense

Bombeiros trazem Chaimite do 25 de Abril à Avenida da Liberdade

No próximo dia 24 de abril, em frente ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo, em plena Avenida da Liberdade, vai estar ao vivo um dos símbolos da revolução de 25 de Abril de 1974: uma chaimite como as que, há 35 anos, integraram a coluna militar que saiu de Santarém rumo a Lisboa para acabar com o regime do Estado Novo. Esta é uma iniciativa da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo, que conta com o apoio da Associação 25 de Abril e da Câmara Municipal de Palmela.

A participação das chaimites no golpe militar de 25 de Abril proporcionou a esta viatura blindada uma exposição pública que a colocaria, para sempre, na História de Portugal. A par dos cravos nos canos das metralhadoras, a chaimite transformou-se num dos ícones da revolução portuguesa.

De ilustre desconhecida até às manchetes dos jornais

Ao amanhecer daquele dia, as chaimites do capitão Salgueiro Maia foram as “estrelas” que defrontaram, no Terreiro do Paço, as unidades fiéis ao regime e, sem dispararem, levaram de vencida a oposição ao golpe. Ao cair da tarde, quando Marcelo Caetano aceitou a rendição, no Largo de Carmo, foi uma chaimite (a famosa “Bula”) que avançou, no meio da multidão, para o presidente do Conselho de Ministros abandonar o quartel da GNR e ser conduzido ao posto de comando do Movimento das Forças Armadas.

Ao recordar a data histórica, Otelo Saraiva de Carvalho explicou que a escolha daquela viatura, destinada sobretudo ao transporte de tropas, se ficou a dever ao facto de ser «um veículo mais ligeiro e fácil de manobrar que os carros de combate, com capacidade de virar no acanhado Largo do Carmo, cheio de gente, e entrar no portão do quartel-general da GNR».

A partir de então, a viatura concebida para a guerra colonial, e batizada com o nome da localidade moçambicana onde Mouzinho de Albuquerque tinha capturado Gungunhana, passou a ser figura obrigatória em qualquer livro, artigo ou documentário sobre a história recente de Portugal. A ponto de a Associação 25 de Abril ter ficado responsável por operar esta viatura chaimite, desmilitarizada, mas que ostenta matrícula militar e que, habitualmente, encabeça o desfile popular comemorativo da data, do Marquês de Pombal ao Rossio, em Lisboa.

Isso mesmo acontecerá este ano, saindo a viatura do quartel dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo na manhã de 25 de abril, para chegar a Lisboa a horas do desfile. Na véspera, 24 de abril, o veículo ficará exposto, durante todo o dia, na avenida pinhalnovense também batizada “da Liberdade”. Aos comandos estará, como sempre, o Sr. João Paralta, funcionário civil das OGME, com o apoio de José Martins.

José Mário Branco, Jorge Palma e muitos mais

Para as 22 horas do dia 24 de abril, no salão dos Bombeiros, está também marcado um espetáculo com José Mário Branco, um dos mais importantes cantautores de Abril, numa organização da Câmara Municipal de Palmela, que promete várias surpresas. Portanto, o convite aos pinhalnovenses, e não só, é para que cheguem antes do espetáculo para apreciarem in loco a chaimite, receberem um cravo vermelho oferecido pelo município e, de seguida, cantarem e deixarem-se encantar com a melhor música portuguesa.

A assinalar os 35 anos do 25 de Abril, muitas outras iniciativas vão ter lugar na freguesia de Pinhal Novo e em todo o concelho de Palmela. Destaque para o Desfile das Instituições, Movimento Associativo e População, no dia 25 de abril, a partir das 15 horas, desde a sede da Junta de Freguesia de Pinhal Novo até ao Jardim José Maria dos Santos, onde participará, como habitualmente, a fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo.

No dia 26, pelas 15 horas, terá lugar no auditório do quartel dos Bombeiros o espetáculo “Vozes da Liberdade”, em que participam os grupos corais da SFUA, da Associação de Reformados, Pensionistas e Idosos de Pinhal Novo e da Pluricoop.

Em Palmela, realiza-se pelas 11 horas do dia 25 de abril a Sessão Solene da Assembleia Municipal evocativa da data, que terá lugar na Biblioteca Municipal. A partir das 22 horas, no Cine-Teatro São João, é a vez de Jorge Palma subir ao palco.

Fonte: Helena Rodrigues