
Data de Nascimento: 29 de abril de 1977
Posto: Bombeiro de 2ª Classe (desde 15.2.2001)
O início: A brincar, a brincar…
Tudo começou por «uma brincadeira com o pai do Bruno Correia», assim explica Rui Jorge Silva as circunstâncias em que, há 14 anos, ingressou, como Cadete, no Corpo de Bombeiros. Aquele seu colega já era Cadete e foi ele e o pai que o desafiaram a vestir a farda. Rui conta que levou o desafio «um bocado a sério» e veio mesmo falar com o Comandante ao quartel. Tinha 15 anos e estudava na Preparatória quando, em dezembro de 1992, saiu a ordem de serviço que o admitiu na corporação.
O Rui Jorge não era muito dado aos estudos… tanto que só no ano passado, em Setúbal, concluiu o 9º ano, tendo agora decidido aderir ao processo de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC) dinamizado pela Direção da Associação, em colaboração com a Escola Nacional de Bombeiros (ENB), que lhe permitirá – espera ele – ficar com habilitações ao nível dos 10º, 11º e 12º anos. O seu caso é mais um, como muitos outros nos bombeiros portugueses, em que foi a formação profissional como bombeiro, e não o ensino escolar, que fez dele o profissional qualificado que é hoje.
Em 1998, já depois de passar pelos postos de Aspirante e de Bombeiro de 3ª Classe e de ter frequentado cursos de socorrismo e de Tripulante de Ambulância de Transporte (TAT), frequentou o curso de Tripulante de Ambulância de Socorro (TAS), no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), em Lisboa (entretanto recertificado na ENB, em 2001 e, outra vez, em maio deste ano), e, pouco depois, ingressou no quadro de assalariados da Associação.
Perdeu-se um distribuidor de cerveja, que era o que fazia na altura, e ganhou-se um bombeiro, especialmente vocacionado para a área da emergência pré-hospitalar – por formação, mas, principalmente, por características pessoais.
Motivação: Ser socorrista «acho que já é da minha pessoa»…
No retrato do Rui Jorge não encaixa a imagem de um bombeiro assente no último degrau de uma auto-escada, ou pendurado por cordas num resgate em grande ângulo. O seu problema com as alturas impediu-o, em 2004, de concluir com aproveitamento o curso para promoção a Bombeiro de 1ª Classe e explica uma parte do seu perfil operacional. «O [Luís] Neto já me convidou para ir dar umas voltas com eles [com a equipa de salvamento em grande ângulo – Ler Notícia], mas não me conseguem convencer… convidem-me para acampar, para fazer provas de topografia à noite, agora para isso já sabem qual é a minha resposta! Não tenho raça de macaco!», diz ele!
Apesar disso, a formação polivalente recebida no CB – Curso de Salvamento e Desencarceramento, em 1998 (e em 2005 – Ler Notícia); Curso de Operador de Central, no Centro de Formação de Bragança da ENB, em 1999; Cursos de Combate a Incêndios Florestais para GPI (2000) e de Chefes de GPI (2001), no Centro de Formação da Lousã da ENB – permite-lhe sentir-se à vontade noutros domínios: nos incêndios, nos acidentes rodoviários ou na gestão da central de comunicações. «Só tenho pena de não meter [estes conhecimentos] mais em prática…», confessa.
Mas é mesmo a emergência pré-hospitalar que tem mais a ver com ele. E, para isso, à pouca propensão para atividades radicais vêm juntar-se traços de personalidade favoráveis ao sangue-frio nas horas de urgência. Rui considera-se pouco impressionável e até os seus gostos literários vão para histórias de médicos e hospitais, «do tipo Robin Cook». Diz, sobre si: «Não me acho com vocação [para ser médico]… Enfermeiro até era capaz de ser, nas urgências gerais, com sangue com fartura, ossos partidos… Até hoje nada me impressionou, amanhã não sei!». O nosso bombeiro diz-se de bem com o seu dia-a-dia nas ambulâncias de emergência médica: «Não me tira o sono… nem o apetite!».
O que não é sinónimo de insensibilidade (para mais, ele revela muito respeito pelas doenças, que é como quem diz, pela vida). Como outros colegas, também acha que o pior é quando as vítimas são crianças. «É o que dá mais a volta à cabeça, uma pessoa fica sem reação…», vai dizendo, lembrando um acidente recente que o marcou especialmente, por ter vitimado uma menina – Ler Notícia. «Não somos de ferro!», conclui.
Na corporação…
Na corporação, Rui Jorge Silva pode ser chamado a fazer muitas coisas. Medir a tensão arterial às colegas funcionárias da Associação, por exemplo, o que faz com o mesmo profissionalismo com que acorre às chamadas do CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes do INEM). «No outro dia, fui medir a tensão à Paula [Ana Paula Ramos, a contabilista] e, como estava muito baixinha, falei com o médico do INEM e levei-a para o hospital, mesmo contra a vontade dela», conta.
Quando o planeamento diário dos serviços de saúde o exige, é com idêntico profissionalismo que também assegura o transporte de doentes não urgentes, para consultas e tratamentos médicos. É um trabalho que exigirá menos qualificações técnicas, mas que não parece provocar-lhe grandes complexos “de classe”. «Desde que sinta que estou a ser útil às pessoas, tento fazer as coisas com gosto», afirma. Como motorista, Rui adota uma atitude bem disposta e brincalhona, tentando amenizar as dores dos doentes que leva à sua guarda: «Tento brincar um bocado com eles, às vezes têm doenças que nem nos passam pela cabeça e o meu papel também é ajudá-los a esquecer os problemas».
Os doentes agradecem o carinho com que são tratados. «O Rui é divertido, muito carinhoso para as velhotas e toda a gente gosta dele», testemunha uma doente, que costuma retribuir-lhe com chocolates (ele é guloso, toda a gente sabe disso).
Os seus momentos “de ouro” são, enfim, aqueles em que ajuda as mães a darem à luz, e já lá vão mais de uma dezena de casos. «Onze ou doze…Era muito novo quando presenciei o primeiro parto. Era uma menina que agora deve ter uns 13 anos, é ali da Lagoa da Palha», diz, confessando que «há sempre um bocadinho de receio» nestas situações. Felizmente, todos os seus partos foram bem sucedidos, o último dos quais ocorreu já este ano – Ler Notícia.
E na Vida…
Dando razão ao lema adotado pela recém-criada Associação Portuguesa dos Bombeiros Voluntários – Ser Bombeiro não é o que fazemos, é o que somos –, a ligação de Rui Jorge Silva à corporação não se fica apenas pelo cumprimento do horário de trabalho que lhe está estipulado, estendendo-se à esfera familiar. A sua mulher é membro da fanfarra, de que ele é o porta-estandarte. O seu grupo de amigos é «o pessoal dos Bombeiros».
É também sócio da Associação e interessa-se pelo rumo com que “a casa” é dirigida. Diz que achou que o programa de intenções vencedor da última eleição para os órgãos associativos era «uma carta de amor», a que faltava concretizar os objetivos, mas que respeita os resultados. «Quando chegarmos ao fim do mandato é que se irá avaliar se houve promessas que não tenham sido cumpridas… Olha, deixa lá ver, às vezes é da pior moita que saem os melhores coelhos!», professa (a maioria dos bombeiros portugueses tem um político dentro de si, toda a gente sabe disso).
E o que faz quando não está no quartel? Pode não ter muito tempo para isso, mas Rui Jorge Silva gosta de ver filmes e de ouvir «música feita a martelo». «Dançar não é comigo», confessa o dono dos olhos mais clarinhos – e do semblante mais delicado – do quartel, mas numa pista de discoteca até afirma sentir-se bem: «De vez em quando… como é só abanar, aí gosto!»… Puxa-se um bocadinho por ele, e elege uns quantos veteranos do Rock como grupos preferidos: Pink Floyd, Iron Maiden, Guns N’ Roses, Metallica… com o som inglês-suave dos Silence 4 pelo meio.
E voltamos ao problema com as alturas. De avião nunca andou, mas admite que «era capaz de ser interessante…». «Montanha russa sei que é fixe!», surpreende-nos, mas explica-se: «Andei na montanha russa, mas eu não estava em condições… foi numa festa, numa maluquice… Não sei, todos dizem que eu andei mesmo e eu acredito, é lá com eles, tudo bem!». [lol]
O que dizem dele…
Uma imagem vale mais do que 1000 palavras… A tranquilidade da última mãe que deu à luz às mãos do Rui Jorge (Hospital de São Bernardo, Setúbal, 16-2-2006):

1.6.2006
Helena Rodrigues (Texto); Fotografias de Abílio Neves e do bombeiro Sandro Patraquim

